Gustavo: “My life is full of failures.” (2/3)

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Gustavo was featured on last week’s video that got great response on social media. After 24 hours of being posted, it was already our second most watched video – how cool is that? If you missed it, check it here. Gustavo had a candid talk with us about his successes and failures, his passions and experiences. We’re sharing some of his words on today’s post.

 

«I lived around Peniche and I used to go to a normal school, a public school. My mother had just moved there at the time, she is a teacher. So, I haven’t grown up there and every child takes a while to feel included in a new school. Usually all the other kids were born there, grew up there, are from there. I was a bit of an outsider, a bit different. I had some hard time feeling included and that never happened 100%.

In Military College, even though we’re all from different places, from the north to the south and islands, we’re all there subjected to the same experience, in the same place, no matter where we’ve came from. There is not a better place in the world that force people from different worlds and with different life experiences to feel part of a group in such a positive and strong way.»

 

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«Usually when you’re applying to college, you have several options that you can choose from. At that time, when I applied to the Air Force, I just didn’t want to choose. I wanted to get in the Air Force and I didn’t want a plan B. Nothing. I knew I was doing everything I needed, it was in my hands and I was not going to fail, at least in what was up to me. I wanted that so badly that I didn’t even want to think about a plan B. It had to be it and I focused on that for a long time. Obviously I was… I wouldn’t say arrogant, but too confident in a certain way. This goes a bit against the culture of a pilot, because you always have to have plan A, B, C, many alternatives.

My life is full of failures. Behind each success, there is a failure. I’ve passed psychotechnical tests, I had the required grades, the military part was not going to be hard, the flying part neither. From what I knew, I was healthy. But my spine was the only thing that didn’t let me, it didn’t meet their exact standards. It was too straight somewhere and too curvy on another place. They have a very narrow selection, so it was pretty strict. On the next year, I tried again: I swam a lot and ate carrots. The funniest thing is that I scored all the tests again. I even scored better than the first time. Right after the medical exam, the orthopedics’, they swapped the papers and told me I passed the exam. So, for some brief moments, I thought I did passed and I couldn’t believe it. It was too good to be true and I was out of my mind! I was starting to celebrate it, but it hadn’t hit me yet. Then they told me that I didn’t… It was too many emotions! But that was their choice. They usually choose a pilot that has the widest possible versatility, that can fly cargo aircrafts or military fighters, in case they have to be ejected. The problem would be if I had to be ejected. Usually pilots can only be ejected twice, more than that can damage their spine. So, they cut me off to minimize the change of that happening. But it was a big… big failure. Not because I could have done something different, but it was a small disappointment that lead to many other things. Now, I can see that it was for the best.»

 

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«In any work field there is always some kind of compromise you have to do to achieve certain goals. In my cause, it’s the distance. I had to move abroad and I’m still abroad for that reason. This dream made me sacrifice a lot of time of my family, friends and girlfriend. I have to cross the ocean to be with everyone that is important to me.

I live by the motto “work hard, play hard”. I try to squeeze all the work, do it all at once, so I can be out the maximum time possible. Basically I squeeze all the weekends in a row so I can come to Europe.»

 

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«While I was studying and working in the United States of America and Indonesia, I felt that I was living there. When I was settled, I could say that I lived there. But nowadays, I don’t feel that I’m settled anywhere. Sometimes I’m here, other times I’m there. I don’t feel that I live somewhere. I even feel like these days I speak English easier than I speak Portuguese. I’m so rusty. In English everything comes out smoothly and in Portuguese I have to think about it. I live a bit everwhere. I have always adapted easily to things. I think this is something good that I’ve developed in Military College. We have to adapt to the people and to the place we are in. I’ve always been resourceful. But I never forgot my culture. I brought it with me all the time. The people I’ve met in those places had always the privilege to see what is a typical Portuguese and to experience the Portuguese culture.»

 

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«There are a lot of different cultures in the places I’ve been. Indonesia leaves me more nostalgic because it’s quite unique. The United States of America is already a very multicultural country, you find people from all around the world. But everything is already set for the american system, that fast system of eficiency, production and work. In Indonesia it was totally different. It was not all about the work. There was a different perspective of life. Not necessarily just about leisure but a way of celebrating the good things in life. The peace and traquility that those people would give me… Sometimes even too much! But that peace that I felt in Indonesia is still with me these days…»

 

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Psssst: Here goes part 1 (the video) and part 2 of Gustavo’ stories.

 

 

O Gustavo foi a estrela do vídeo da semana passada, que teve ótimas reações nas redes sociais. Após 24 horas da sua publicação, era já o nosso segundo vídeo mais visto – não é espetacular? Se não viram, espreitem aqui. O Gustavo teve um conversa franca connosco sobre os seus sucessos e fracassos, as suas paixões e experiências. No post hoje estamos a partilhar algumas das suas palavras.

 

«Eu vivia perto de Peniche e andava numa escola normal, numa escola pública. A minha mãe tinha-se mudado para lá na altura, ela é professora. Portanto, eu nunca cresci ali e qualquer criança numa escola nova demora sempre um bocadinho a integrar-se. Geralmente os outros miúdos todos nasceram lá, cresceram lá, são de lá. Eu era um bocadinho de fora, um bocadinho diferente. Tive algumas dificuldades em integrar-me e nunca estive 100% integrado.

No Colégio Militar, apesar de sermos todos de sítios diferentes, de norte a sul e das ilhas, estamos ali todos submetidos à mesma experiência, no mesmo sítio, independentemente de onde sejamos. Não há sítio melhor que obrigue pessoas de meios e experiências de vida diferentes a integrarem-se de uma maneira tão positiva e tão forte.»

 

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«Geralmente quando se está a concorrer ao ensino superior, tem-se várias opções que se pode escolher. Na altura, quando concorri à Força Aérea, não queria escolher nada basicamente. Só queria entrar na Força Aérea e não queria ter um plano B. Nada. Sabia que estava a fazer tudo o que era preciso, que estava nas minhas mãos e que não ia falhar, pelo menos no que estivesse ao meu alcance. Queria tanto aquilo que não queria sequer pensar num plano B. Tinha que ser aquilo e foquei-me nisso imenso tempo. Obviamente que fui um tanto, não diria arrogante, mas demasiado confiante em certos aspetos. Isto vai um bocadinho contra a cultura de um piloto, porque temos de ter sempre planos A, B, C, imensas alternativas.

A minha vida está cheia de falhas. Atrás de cada sucesso, há uma falha. Passei os psicotécnicos, eu tinha a média, a parte militar não ia ser difícil, a de voo também não. À partida, do que eu sabia, era saudável. Mas foi mesmo a coluna, foi a única coisa que não me deixou, não tinha os padrões exatos que eles queriam. Num sítio era muito direita, noutro era muito torta. Como têm seleção muito apertada, é bastante restritivo. No ano seguinte tentei: fartei-me de nadar e comer cenouras. O mais engraçado é que voltei a passar tudo. Fiz ainda melhores testes e tudo o mais. Mesmo depois de ter feito a parte do exame médico, a ortopedia, eles enganaram-se nos papéis e disseram que eu tinha passado. Portanto, houve uns momentos em que eu soube que tinha passado e nem queria acreditar. Era bom demais para ser verdade e até fiquei parvo! Já estava a fazer a festa, mas ainda nem me tinha caído bem a ficha. Depois disseram-me que afinal não… Foi um pico de emoções. Foi essa a seleção deles. Geralmente selecionam um piloto que tenha a máxima versatilidade, que vá voar aviões de transporte ou caças, no caso de ter de se ejetar. Seria mesmo esse o problema, se me tivesse de ejetar. Geralmente os pilotos só se podem ejetar duas vezes, mais do que isso a espinha já dá de si. Portanto, eles rejeitaram-me só para minimizar a probabilidade disso acontecer. Mas foi um grande… um grande falhanço. Não porque podia ter feito alguma coisa de diferente mas foi uma pequena desilusão que encadeou muitas outras coisas. Agora, acabo por ver que foi o melhor.»

 

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«Em qualquer área há sempre o compromisso que tem de se fazer para conquistar certas coisas. No meu caso é mesmo a distância. Tive de ir para fora e ainda hoje estou fora por esse motivo. Este sonho faz-me abdicar de muito tempo com a família, os amigos e a minha namorada. Tenho de atravessar o oceano para estar com toda a gente que é importante para mim.

Eu funciono um pouco pela cultura do “work hard, play hard”. Tento concentrar o trabalho todo, fazê-lo todo de uma vez e depois estar o máximo de número de dias seguidos fora. Basicamente combinar os fins de semana todos seguidos para vir à Europa.»

 

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«Enquanto estive a estudar e a trabalhar nos Estados Unidos da America e na Indonésia, sentia-me a viver lá. Quando estava mais fixo, posso dizer que vivia lá. Nos dias de hoje, eu não me sinto a viver fixo em lado nenhum. Numa altura estou aqui. Noutra altura estou ali. Não me sinto a viver em nenhum sítio. Parece que até inglês, hoje em dia, falo com mais facilidade do que português. Estou tão enferrujado. Em inglês sai-me fluído e em português tenho de estar a pensar. Vivo um pouco por todo o lado. Sempre tive uma boa facilidade de me adaptar. Acho que foi uma qualidade que se desenvolveu no Colégio Militar. Temos que nos adaptar às outras pessoas e ao meio onde estamos. Sempre me consegui desenrascar bem. Mas nunca fui de deixar a minha cultura para trás. Sempre a trouxe comigo. As pessoas com quem me cruzei nestes sítios tiveram sempre o privilégio de ver o que seria um típico português e de experienciar um bocadinho da cultura portuguesa.»

 

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«Culturas é o que não falta nos sítios onde eu já estive. A Indonésia deixa um tanto mais de saudades porque foi bastante único. Os EUA já são um país que é bastante multicultural, há gente de todo o lado. Mas já está tudo um bocadinho configurado para o sistema americano, aquele sistema rápido, de eficiência, produção e trabalho. Na Indonésia era totalmente diferente. Não é só tudo trabalho. Há uma perspetiva diferente da vida. Não necessariamente de lazer mas de celebrar de maneira diferente as boas coisas da vida. A paz que as pessoas transmitem e a tranquilidade… Às vezes até a mais! Mas a paz que me foi transmitida na Indonésia ainda hoje vem comigo…»

 

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Psssst: Aqui estão a parte 1 (o vídeo) e parte 2 das histórias do Gustavo.