Teresa: “During a war it’s more black and white.” (2/3)

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When we presented the craziness idea of making a video that would portray a bit of Teresa, we weren’t expecting her to react in such an enthusiastic way. But, after all, that’s Teresa. In an open, honest and casual way, she spoke about several aspects of her life, always punctuating the conversation with an humoristic traits. Today we transcribed some of Teresa’s experiences as a humanitarian worker for United Nations High Commissioner for Refugees (UNHCR). 

 

«My father thought it was inconceivable for me to go to Malawi, to the middle of nowhere. But I did. I did and I loved it. I started in Malawi, where there was a tremendous influx of Mozambican refugees. I had a series of camps (for refugees). Hundreds of thousands of people under my responsibility. There were all confined to camps, but everything was very well organized. It was a program that worked very well. When Mozambique was in peace again, I returned to Mozambique with them to help their reintegration.

All these efforts are multisectoral. They need schools, clean water to drink, health care, well. Land, farm implements, ovens to cook. From the tiniest detail you can imagine to the political aspects. It is a very interesting work because it covers it all. You can be on flip-flops in the middle of the woods and suddenly be drinking something in a meeting with ministers. But this type of work wears you down, there is no doubt about it.»

 

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«At the market, people built little frames for me. I had lots of photos from my friends. This was mainly in Malawi, because in other places I had a suitcase. I wasn’t aloud to have more things with me. When I got back (to Portugal), I had two huge trunks full of frames with photos. They weighted tons. I thought to leave them behind because I don’t need so much stuff hanging on the walls, I don’t miss people because they are right here with me. But then I hung them and they are now in my bedroom.»

 

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«I remember perfectly the old men that I’ve met who’ve been soldiers. Some fought during the Second World War and some during the First. They said they deeply missed war. I thought that was unthinkable. But, as they say, “during war times, don’t clean your weapons”. Those who live in a war zone don’t have time to be sissy. They select immediately who they prefer, who they get along with. It doesn’t mean that you don’t have to work with the others. But you don’t really know if there is a tomorrow or not. You can’t waste time. There is a certain urgency that makes you smarter, more dynamic.

This pragmatism is for sure in my nature. But there is no doubt that, once you’ve been in a war situation, you will embody that in your own way of being, of thinking, of facing life. Some evil things needs to happen in order to achieve good results. It’s one of the most horrible things I could say, but it’s true. During a war it’s more black and white. You got to do what you got to do. If you need to slap a hysterical person because you need to get them in a bus, you do that if you have to. You don’t care if they don’t want to. When the end is clear and immediate… Life is made of these immediate moments. You don’t see at the end of the tunnel, fifteen years from then, where it will lead to. You don’t see if the child is going to be traumatized: it already is, for sure, if in a war situation. I’m not saying that I’ve done this, but there is no doubt that you have to be pragmatic. You have to take some really tough decisions, often.»

 

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«You have to grow a thick skin to a certain point. To work. If you don’t, you won’t. It’s a bit like with doctors. But you get hurt. You have very hard moments. I remember going to an orphanage in Bosnia. It was one of the most excruciating moments I’ve lived so far. I don’t have a drop of maternal instinct in me, but I would take all these children to my house. They were well-cared-for, but some were crying around. It was sad. It was in a war environment, a freezing cold. It is horrible. Those things never go away. But there needs to be some kind of conformism in all of these, otherwise you get crazy.»

 

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Psssst: This is a bit of Teresa’ story. You can get to know her better by watching the video

 

Quando falámos à Teresa na loucura ideia de fazer um vídeo que retratasse um pouco dela, não estávamos à espera que reagisse de forma tão entusiástica. Mas, afinal de contas, a Teresa é mesmo assim. Com grande abertura, franqueza e descontração, falou-nos de vários aspetos da sua vida, pontuando sempre a conversa com um toque humorístico.  Hoje transcrevermos algumas das experiências da Teresa enquanto trabalhadora humanitária no Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

 

«O meu pai achava uma coisa inconcebível que eu fosse para o Malawi, para o meio do nada. Mas fui. Fui e adorei. Comecei no Malawi, onde havia um influxo tremendo de refugiados moçambicanos. Tinha uma série de campos (de refugiados). Centenas de milhares de indivíduos a meu cargo. Estavam todos confinados a campos, mas a coisa estava muito bem organizada. Foi um programa que funcionou muito bem. Quando houve paz em Moçambique, eu fui para Moçambique com eles para os ajudar a reintegrar.

Todos estes esforços são multisectorais. Eles têm de ter escolas, têm de ter água limpa para beber, têm de ter cuidados de saúde, enfim. Terra, implementos agrícolas, fornos para cozinhar. Do detalhe mais pequeno que possas imaginar aos aspetos políticos. É um trabalho muito interessante porque abrange isto tudo. Tão depressa estás de chanatos no meio do mato como estás a beber uma bebida numa reunião com ministros. Mas é um trabalho que desgasta muito, não há dúvida.»

 

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«No mercado, as pessoas faziam-me molduras pequeninas. Eu tinha montes de fotografias dos amigos. Isto foi sobretudo no Malawi, porque nos outros sítios tinha uma mala e não podia levar mais nada. Quando voltei (para Portugal), tinha dois baús enormes cheios de molduras com fotografias. Pesavam toneladas. Pensei em deixá-las, porque não preciso de tanta coisa nas paredes e já não tenho saudades das pessoas porque elas estão aqui à minha frente. Mas depois pus na parede e estão no meu quarto.»

 

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«Lembro-me perfeitamente de velhos que eu conheci e que tinham sido soldados. Alguns na Segunda Guerra Mundial e alguns ainda na Primeira. Diziam que tinham imensas saudades da guerra. Eu achava aquilo uma coisa impensável. Mas, como dizem, “em tempo de guerra, não se limpam armas”. A pessoa quando vive numa guerra não tem tempo para mariquices. Seleciona logo quem é que prefere, com quem é que se dá bem. Não quer dizer que não tenha de funcionar com os outros. Mas não sabe se há amanhã ou não. Não há tempo a perder. Há toda uma urgência que te torna mais esperta, mais dinâmica.

É da minha natureza, com certeza, este pragmatismo. Mas não há dúvida nenhuma de que, depois de estares numa situação de guerra, é impossível que não incorpores isso na tua maneira de ser, de pensar e de encarar a vida. Há um mal que tem de decorrer para se obter um resultado bom. É das coisas mais horríveis que se pode dizer, mas é verdade. Numa guerra é tudo muito mais preto e branco. Há coisas que tens de fazer e tens de fazer. Se for preciso dares uma chapada em alguém que está histérico porque precisas de o pôr numa camioneta, tu faz isso à força, se preciso for. Não interessa que se arranhe, que se amachuque. Quando o fim é claro e é imediato… A vida é feita destes imediatos. Não vês ao fim do túnel no que é que irá dar em quinze anos. Não vês se a criança vai ficar traumatizada: ela já está traumatizada, com certeza, se está numa situação de guerra. Não estou a dizer que foi isto que eu fiz, mas não há dúvida de que tens de ser pragmático. Tens de tomar decisões muito complicadas, muitas vezes.»

 

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«Cria-se uma carapaça até certo ponto. Para funcionar. Se não, não funcionas. É um bocado como os médicos. Mas magoas-te. Tens momentos dificílimos. Eu lembro-me de ir a um orfanato na Bósnia. Foi das coisas mais excruciantes que eu vivi até hoje. Eu, que não tenho um pingo de instinto maternal, levava aquelas crianças todas para casa. Elas estavam bem tratadas, mas um chora para um lado, outro chora para o outro. É uma coisa triste. Um ambiente de guerra, um frio do caraças. É horrível. São coisas que nunca passam. Mas tem de haver uma dose qualquer de conformismo no meio disto tudo, se não ficas doida.»

 

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Psssst: Este é um pouco da história da Teresa. Podem conhecê-la melhor vendo o vídeo

 

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